O impacto social das atividades de uma organização faz parte do negócio

MUDANDO O MODELO DE NEGÓCIOS
SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL VAI ALÉM DE PEQUENOS ESFORÇOS PARA PRESERVAR O MEIO AMBIENTE OU FONTES DE RECURSOS NATURAIS. TER VISÃO HOLÍSTICA DO MEIO ONDE ESTÁ INSERIDA É PRERROGATIVA INDISPENSÁVEL PARA O SUCESSO DE QUALQUER EMPRESA NOS DIAS DE HOJE

Foi-se o tempo em que para classificar uma empresa como sustentável bastava enxergar pequenos esforços despendidos nos escritórios ou linhas de produção. Incentivar funcionários a terem suas pró­prias canecas ou fazer uma ampla campanha de destino correto de resíduos passaram a ser prerrogativas básicas de qualquer empresa.

Seja por desconhecimento do conceito, seja por comodismo em aplicar somente práticas mais simples, a sustentabilidade empresarial está difundida no país de forma bastante desigual. Enquanto há empresas que continuam no mais básico conceito de gestão sustentável, outras já são referências ao tornarem seus negócios tão sustentáveis que, quanto mais produzem, mais sustentáveis ficam, qualidade inversamente proporcional se comparadas com outros mo­delos de negócios que ainda não conseguiram aliar produção ao uso racional de recursos.

Uma consulta rápida ao dicionário consegue esclarecer o conceito de sustentabilidade: “con­dição do que é planejado com base na utilização de recursos e na implantação de atividades industriais, de forma a não esgotar ou degradar os recursos naturais”. Seguindo essa definição, uma empresa sustentável é aquela que busca desenvolver seu negócio sem prejudicar o meio onde está inserida.

Aron Belinky, coordenador do Master em Gestão Sustentabilidade e do Programa Produção e Consumo Sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabili­dade (GVCes), ambos da Fundação Getulio Vargas, explica que sustentabilidade empresarial é a preo­cupação que a corporação tem sobre os impactos negativos que sua atividade pode causar na vida das pessoas. “Exercer a sustentabilidade empresarial significa analisar os negócios da empresa levando em conta como fazer com que os impactos negativos de sua atividade sejam os menores possíveis. É estar atento às necessidades e bem-estar da população no meio onde ela está inserida”, explica.

Segundo Belinky, a sustentabilidade empresarial já vive sua terceira geração. Em artigo recente publi­cado pelo GVCes – o Centro de Estudos em Susten­tabilidade da FGV –, o professor defende a teoria de que, passados os estágios iniciais de conhecimento do conceito de sustentabilidade e adequação às normas vigentes, agora as empresas passam a viver um terceiro desafio: como tornar seus modelos de negócios sustentáveis. “Falar numa terceira ge­ração de sustentabilidade empresarial tem a ver, conceitualmente, com a empresa ter um modelo de negócios e uma maneira de produzir valor que seja capaz de garantir o bem-estar da empresa e o atendimento às necessidades da população, dentro das limitações da natureza”, explica. “Esse conceito envolve não só a empresa, mas também a relação que ela mantém com a sociedade e com o meio ambiente em que está inserida. Não tem como se pensar sustentável sem olhar o entorno”, completa.

SURGIMENTO

Belinky explica que o conceito de desenvolvi­mento sustentável surgiu ainda na década de 1980, mais precisamente em 1987, quando a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Comissão Brundtland, divulgou o relatório Nosso Futuro Comum. Pela primeira vez na história, foram apontados problemas no modelo de desenvolvi­mento dos países industrializados e a comissão alertava sobre o uso excessivo dos recursos naturais.

Foi justamente essa primeira tentativa de dis­cutir a sustentabilidade que propiciou, já na década de 1990, a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. A Eco-92, que aconteceu no Rio de Janeiro, reuniu líderes mundiais para tratar sobre a importância de encontrar mecanismos para um desenvolvimento sustentável global. Um dos documentos mais importantes que resultaram do encontro foi a Agenda 21, uma nova maneira de se pensar o desenvolvimento utilizando os recursos naturais de forma mais comedida e racional.

ECO 92

Belinky explica que foi logo após a Eco-92 que a sustentabilidade empresarial entrou no segundo estágio. Até então, o termo sustentabilidade nem era empregado e as empresas buscavam, no máximo, identificar o que existia de nocivo em seus processos de produção. E acidentes decorrentes desses processos eram raramente assumidos pelas corporações. Quando o faziam, era mais por pressão da opinião pública.

Depois da Eco-92 e da Agenda 21, não era mais possível imaginar uma empresa que não se preocupasse com o todo: era preciso levar em conta não apenas os próprios interesses, mas também os dos outros, que poderiam poten­cialmente ser atingidos pelo modus operandi da companhia.

Atualmente, pôr em prática uma agenda sus­tentável já não basta. Segundo Belinky, trata-se de pensar o futuro da empresa considerando um amplo conjunto de fatores voltados à sus­tentabilidade. “Quando falamos nesta terceira geração, falamos de empresas que vão além e reveem seus modelos de negócios à luz da sustentabilidade. Elas procuram avaliar se a atividade que elas exercem vai contribuir para que os limites planetários não sejam ultrapas­sados”, afirma.

Belinky cita o exemplo da indústria automobi­lística. A produção crescente de veículos acaba gerando diversos impactos: uso dos espaços urbanos e uso de fontes de energia naturais. “A expansão do negócio da empresa entra em conflito com a questão ambiental. Há compa­nhias que já começam a pensar em medidas alternativas como a produção de automóveis que consumam menos recursos naturais e o uso de matérias-primas vindas de fontes renováveis. Mas, mesmo assim, o modelo de negócio ainda tem o problema inicial. Talvez o caminho mais sustentável seja pensar alternativas de mobi­lidade urbana. Promover esse debate pode ser importante para o futuro da empresa”, explica.