PRESERVAR RECURSOS NATURAIS E CUIDAR DO PLANETA É REGRA A SER CUMPRIDA PELAS ORGANIZAÇÕES DESDE O FINAL DO SÉCULO PASSADO. GERIR ESSE CUIDADO É PAPEL DO GESTOR AMBIENTAL

Desde 2005, a publicação canadense Corporate Knights, especializada em responsabilidade social e desenvolvimento sustentável, lista as empresas mais sustentáveis do planeta. O último ranking, publicado em dezembro de 2016 e divulgado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, traz a BMW encabeçando a lista das empresas mais sustentáveis. Duas companhias brasileiras são citadas entre as 100: a Natura, em 61° lugar, e o Banco do Brasil, em 75° lugar.

No Brasil, a revista Exame divulgou o ranking da Corporate Knights e explicou que, para for­mar a lista, a publicação canadense leva em conta 11 indicadores principais das empresas analisadas: energia, emissão de carbono, con­sumo de água, resíduos sólidos, capacidade de inovação, pagamentos de impostos, a rela­ção entre o salário médio do trabalhador e o do CEO, planos de previdência corporativos, segurança do trabalho, percentual de mulhe­res na gestão e o “bônus por desempenho”.

A lista de indicadores medidos pela publica­ção é um exemplo de apenas uma pequena parcela das preocupações que as companhias devem ter no que se refere à gestão ambien­tal. Mesmo não estando instalada numa área de conservação nem exercendo atividades que impactem diretamente o meio ambiente, é praticamente impossível, nos dias de hoje, que qualquer atividade comercial não gere algum tipo de impacto ambiental.

Paulo Pizão é administrador, advogado, pro­curador federal aposentado e dirige a SERVEC Ecologia, empresa especializada em gestão, adequação, estudos, avaliações, projetos e licenciamento ambiental. Ele explica que toda empresa, de uma forma ou de outra, causa impacto ambiental porque produz resíduos. O que muda é se esses impactos são em maior ou menor escala.
“A preocupação com o meio ambiente precisa estar presente até antes de uma empresa se instalar. É preciso verificar as áreas onde se pretende instalar a companhia, se trata-se de uma unidade de conservação ou não, se está passível à proteção ou se existe algum zoneamento que ordene a forma como a área deve ser usada”, diz.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, o Brasil possuía 1.783 unidades de conservação (UCs), terrestres e marinhas, com cerca de 1,5 milhão de km², superando as áreas somadas de Portugal, França e Alemanha. A crescente preocupação em preservar o meio ambiente reflete-se na estatística: em 1992, as unidades de conservação representavam 5,4% do terri­tório nacional e, em 2013, 17,3%.

Vencida a etapa inicial mais básica, ainda há fiscalização da operação com base na li­cença de instalação obtida pela companhia. Não seguir essas determinações é estar em desacordo com a legislação. Segundo a lei de crimes ambientais de 1998, é considerada crime ambiental toda atividade promovida sem licença, fora outros crimes decorrentes da falta de licenciamento.

“Tudo isso precisa ser dito para que as empre­sas se conscientizem sobre a importância da gestão ambiental e a necessidade de se ter um profissional capacitado à frente da gerência desse setor”, explica Pizão.

Desde 2002, o IBGE publica os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS) do Brasil. Em 2015, o Instituto divulgou a sexta edição do estudo, que reúne 63 indicadores com o objetivo de traçar um panorama do país em quatro dimensões: ambiental, social, econô­mica e institucional.

Os indicadores da dimensão econômica do estudo ajudam a perceber os impactos da timidez da gestão ambiental nas empresas brasileiras. A matriz energética do país apre­sentou crescimento (de 56,1%, em 2003, para 57,6%, em 2012), principalmente na oferta de petróleo e derivados, que passou de 36,7% para 39,2%, entre 2008 e 2012.

Os combustíveis fósseis continuam a domi­nar a matriz energética brasileira (57,6%), mas, analisando-se a distribuição das dife­rentes fontes renováveis, percebe-se que os derivados de cana-de-açúcar e carvão vegetal estão perdendo participação, em parte pelo aumento relativo das fontes alternativas (solar, eólica, biomassa, biogás etc.).

A participação dessas fontes na matriz ener­gética passou de 2,8%, em 2003, para 4,1%, em 2012. Já a participação da lenha e do carvão vegetal caiu de 13,2% para 9,1%, entre 2004 e 2012.
Embora considerados fontes renováveis, nem sempre são produzidos de forma sustentá­vel, ou seja, a partir de florestas plantadas para tal.

Em dez anos, a participação das fontes reno­váveis de energia quase dobrou, passou de 2,8% para 4,1%. No entanto, ainda é tímida demais e ratifica a necessidade de buscar alternativas de gestão mais eficientes dos recursos naturais, para usar apenas um viés da sustentabilidade.

CICLO

A gestão ambiental pressu­põe a identificação e avalia­ção dos impactos ambientais. Isso permitirá que sejam im­plantados instrumentos de gestão que diminuam esses impactos. As empresas pre­cisam, na sequência, estabe­lecer métricas para avaliação dos indicadores ambientais. É isso que permitirá saber com precisão se as medidas adotadas estão tendo real efetividade na redução dos impactos. Para fechar o ci­clo do processo de gestão ambiental, sabendo como a companhia está respon­dendo às ações implementa­das, cabe ao gestor de meio ambiente aprimorar os pro­cessos administrativos para conseguir melhorar cada vez mais a performance da em­presa no que tange ao meio ambiente.

Esse esquema demonstra o quanto a gestão ambiental se assemelha ao processo de gestão já feito por ad­ministradores. O que muda é o enfoque. Armando Dal Colletto, professor, admi­nistrador, engenheiro e coordenador do Grupo do Pacto Global do CRA de São Paulo, afirma que o gestor ambiental administra com ênfase na sustentabilidade. Sua principal função é o uso de práticas e métodos para reduzir ao máximo o impacto ambiental das atividades eco­nômicas da organização onde atua. “O perfil desse gestor é de ter um grande respeito pela natureza e preocupar-se com o impacto das ativida­des do homem na terra. Suas principais tarefas estão re­lacionadas com o bom uso dos recursos naturais, seja como componentes diretos ou indiretos nas atividades econômicas”, explica.

Colletto ressalta que as em­presas consomem muitos insumos em seus processos produtivos e, na maioria das vezes, não se preocupam com o destino final de seus pro­dutos. “Entre as prioridades do gestor ambiental deve es­tar a busca de soluções que minimizem esses impactos, além de procurar formas de tornar as empresas mais sus­tentáveis. E isso exige criatividade na busca de soluções ambientalmente corretas”, afirma.

Também cabe ao gestor ambiental a difícil tarefa de mudar a mentalidade das empresas, de muitos de seus controladores, com destaque à importância de adotar medidas que dimi­nuam os impactos gerados pelos processos produtivos no meio ambiente. “O gestor deve ser hábil nessa seara do convencimento, demons­trando internamente que, em médio prazo, as empresas socialmente responsáveis são mais lucrativas e ganham o respeito da sociedade”, orien­ta Colletto.

“As organizações que ofe­recem espaço para essas atividades são as que acre­ditam no triple bottom line na demonstração de seus resul­tados. São os três ‘Ps’ (people, planet, profit), ou seja: gente, planeta e resultado. Logo, o profissional dessa área deve entender a importância des­se equilíbrio para não atuar de maneira parcial num único ‘P’”, conclui.

ECONOMIA

Segundo Pizão, o ponto positivo da gestão ambiental é que ela já se mostrou como uma excelente estratégia para redução de custos. “É sabido que, em média, empresas que atuam de forma ambientalmente ade­quada conseguem reduzir 30% dos custos. Mas, para isso, é preciso ter um sistema de gestão eficiente, que identifique e cumpra todas as normas exigidas pelos órgãos res­ponsáveis”, alerta.

Pizão afirma que existem 11 autoridades públicas fiscalizando a atuação das empresas na esfera ambiental – Ministério Público, polícias, órgão ambiental estadual, Ibama, secretarias estaduais de meio ambiente, Instituto Chico Mendes, comissões de meio ambiente de assembleias legislativas, apenas para citar alguns exemplos. Adequar uma empresa às normas ambientais não a torna imune à fiscalização de todos esses órgãos. E o que a história já provou é que um erro ambiental gera multas milionárias capazes de falir até empresas de grande porte. “Por isso, as empresas precisam gerir os aspectos ambientais com correção, segurança e certe­za. Nesse contexto, o papel do administrador alcança uma grande importância porque é da natureza dele fazer o conhecimento fluir para um objetivo”, afirma Pizão.

No entanto, Pizão conta que ainda não há grande procura de administradores pelo nicho da gestão ambiental. “O país, assim como o meio ambiente, precisa de gestão. E o especialista em gestão por excelência é o administrador”, atesta.

De acordo com Colletto, até pouco tempo, as disciplinas tradicionais dos cursos de gestão eram suficientes para capacitar adminis­tradores focados em áreas clássicas, tais como finanças, marketing ou operações. “Na medida em que a gestão das organizações tem que enfrentar um cenário econômico mais turbulento e se defrontar com ques­tões adicionais, relacionadas a temas como licenciamento ambiental, gestão de energia, restrições de recursos naturais e até ques­tões climáticas, somente aqueles com uma formação mais abrangente conseguirão ter o talento necessário para esses desafios. A combinação do conhecimento clássico com o mais específico nas questões ambientais é a receita de eficiência adequada”, afirma.

O interesse por temas ligados à sustentabili­dade surgiu quando Colletto passou a dirigir escolas de Administração. “Naquela época, as escolas líderes começavam a aderir ao PRME (Principles of Responsible Education) e as empresas, ao Pacto Global e seguir princí­pios estabelecidos por esses braços da ONU.

Reconheci a importância desse co­nhecimento para formar os futuros administradores com esses princípios no seu background”, conta. A experiên­cia fez com que Colletto se tornasse membro do projeto Climate Reality, liderado pelo ex-vice-presidente ame­ricano Al Gore, e atualmente é um dos mentores do projeto no Brasil.

Para Colletto, a gestão ambiental é uma profissão relativamente nova e, por isso, ainda não há exclusivi­dade de formação profissional para exercê-la. “Apesar de o assunto já ser conteúdo obrigatório nos currículos, ainda não se posiciona a gestão am­biental como um dos temas de horário nobre nos cursos de Administração.

Alunos ainda priorizam os temas clássicos, tais como finanças, mar­keting ou operações. Na medida em que a consciência da sociedade aumentar e orientar para um novo comportamento, veremos a demanda por essas competências crescer e os administradores que se antecipa­ram serão beneficiados com novas oportunidades profissionais”, afirma.

MERCADO

O administrador Rodrigo Martins Campos de Oliveira tem 13 anos de carreira e, desde o princípio de sua trajetória profissional, as questões ambientais sempre estiveram ligadas às atividades que exercia. Em 2011, depois de ter acumulado experiência em empresas de grande porte, Oliveira resolveu empreender.

“Abri uma distribuidora de papel e ma­teriais para escritório em Cuiabá, Mato Grosso. Morei lá até 2014 e resolvi voltar para São Paulo, mas sem abandonar a em­presa. Uma sócia permaneceu em Cuiabá e faz a gestão do dia a dia; eu faço a gestão financeira a distância”, explica.

Hoje, Oliveira é mestrando em sustentabi­lidade na FGV e dirige a Fral Consultoria, empresa que presta serviços de engenharia e gestão na área de meio ambiente, com grande foco em resíduos. Para ele, a gestão ambiental exercida por administradores traz diversos benefícios às empresas.

“O administrador, por ter uma formação generalista em diversas áreas, mas uma sólida conceituação financeira, demonstra habilidades diferentes de outros profis­sionais do setor. A visão holística permite um olhar de fora sobre os problemas e, consequentemente, o desenvolvimento de soluções mais eficientes, mesmo sem dominar os detalhes técnicos”, explica.

Segundo Oliveira, o ponto chave para que administradores se apoderem da gestão ambiental está na possibilidade de de­senvolverem modelos de negócios para o meio ambiente que tenham sustentação financeira e garantam sua perenidade. “Para isso, os administradores precisam exercer diversas conexões, trabalhar um pensamento inovador, se livrar de precon­ceitos e conseguir traduzir os benefícios da gestão ambiental em números para que os stakeholders compreendam”, afirma.

Apesar de haver importantes pontos que apontam a gestão ambiental como campo promissor para administradores, Oliveira afirma que ainda são poucos os profissio­nais de Administração que se dedicam ao nicho. “É mais comum ver economistas, em decorrência do viés financeiro que a gestão ambiental possui”, diz. “Fora isso, as faculdades de Administração dificilmente tratam do tema ‘meio ambiente’. Quando tratam, é com um viés negativo em que o meio ambiente é um entrave que gera dificuldade para o desenrolar de projetos”, aponta.