Além das linhas de produção

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ESPECIALISTA EM SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL COMENTA AS TENDÊNCIAS DO SETOR E FAZ UMA ANÁLISE DA ÁREA QUE CONSIDERA A EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE GESTÃO

Administrador Márcio Barela é especialista em Sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas. Ainda adolescente, começou sua vida profissional trabalhando no setor bancário, onde se firmou e conheceu o tema sustentabilidade.

Atualmente, consultor de Sustentabilidade na Car­gill, empresa multinacional do ramo alimentício, desenvolve inúmeros projetos para diminuir o impacto das atividades empresariais, a exemplo da logística reversa dos óleos Liza, marca produzida pela empresa. Em entrevista à RBA, Barela fala um pouco sobre a construção da sua carreira e sobre os rumos e a importância da sustentabilidade empresarial no Brasil e no mundo.

RBA – COMO COMEÇOU SUA CARREIRA E POR QUE ESCOLHEU A ADMINISTRAÇÃO?

Barela – Comecei a trabalhar em banco aos 14 anos. Era meio que um office-boy. A minha carreira foi muito no mercado financeiro e eu fui buscar o curso de Administração porque já tinha essa vontade de administrar. Ainda adolescente, tive uma empresa de estamparia de camisetas, em casa. A empresa cresceu e eu envolvi toda a família nisso. Essa foi outra experiência que me fez ter interesse em buscar o curso de Administração.

RBA – DE QUE FORMA CHEGOU À ÁREA DE SUSTENTABILIDADE?

Barela – Já formado, eu fui para o Banco Real que era muito forte nessa área de sustentabilidade. Lá eu era gerente de projetos. E uma das coisas que a sustentabilidade do banco fazia era levar o tema para todos os funcionários.

Foi numa oficina de sustentabilidade que eu conheci o tema e me identifiquei completamente. Falei: ‘É isso que eu quero pra mim!’ Então fui estudar sus­tentabilidade. Fiz parte da primeira turma do MBA de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas.

RBA – DEPOIS DE CONHECER O TEMA NO BANCO REAL E SE ESPECIALIZAR, VOCÊ PASSOU A ATUAR DIRETAMENTE NA ÁREA. COMO CHEGOU A EMPRESA QUE TRABALHA HOJE, A CARGILL?

Barela – Surgiu uma vaga na Cargill, participei do processo seletivo e fui chamado. Não tinha ain­da pessoas especialistas em sustentabilidade na empresa, a Cargill estava começando a estruturar essa área. Eu fui a primeira pessoa contratada especialista para tratar isso dentro do negócio.

Era muito diferente do banco. Porque no banco tinha uma área enorme, então cada um fazia o seu papel dentro do tema sustentabilidade. Na Cargill não, eu sabia que teria que criar tudo, desenvolver estratégias, aprovar e implementar. O desafio era muito maior, mas foi isso que me motivou a entrar na empresa.

RBA – COMO FUNCIONA O SEU TRABALHO NA CARGILL?

Barela – O propósito da Cargill é nutrir as pessoas de forma segura, responsável e sustentável. É um desafio uma empresa que quer nutrir o mundo nesse cenário que a gente vive hoje, onde a popu­lação cresce e consome cada vez mais.

O objetivo é levar para prateleira do supermerca­do um produto que foi feito com menor impacto possível, isso é importantíssimo. Todo produto gera impacto ao ser produzido. Nossa missão é diminuir esse impacto e tentar mudar a logística comum – modelo linear de extração, produção, consumo e descarte – para um modelo circular, onde podemos reinserir o resíduo do final da cadeia no processo produtivo, amenizando a extração de novos recursos.

RBA – É POSSÍVEL MENSURAR O RESULTADO DAS AÇÕES SUSTENTÁVEIS DA EMPRESA NA COMUNIDADE EM QUE ESTÁ INSERIDA?

Barela – Sim, é possível. Nosso trabalho não é só para amenizar os impactos ambientais, mas também para gerar um impacto positivo na sociedade. Então, alguns projetos nossos acabam envolvendo direta­mente a sociedade. Um exemplo disso é o projeto de logística reversa do resíduo do óleo de fritura.

Criamos o programa em 2010 para oferecer aos consumidores uma opção de descarte desse resíduo. Colocamos pontos de coleta de óleo o mais próximo possível da população. O programa cresceu muito, já está em oito estados do Brasil, e agora alcança­mos a marcar de 2 milhões de litros coletados. Isso gera um impacto positivo ambiental e também social e econômico. A maior parte do resíduo do óleo de fritura vai para a produção de biodiesel, que é um combustível mais limpo.

Essa mudança não é simples, por isso o programa trabalha muitas ações de educação e conscienti­zação. Temos visto que funciona muito quando a gente investe em educação nas escolas, porque a criança entende com muita facilidade, muda o comportamento e ela leva isso para casa, o que acaba refletindo no comportamento da família.

RBA – O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE ENGLOBA IMPACTO SOCIAL E ECONÔMICO, ALÉM DE AMBIENTAL. PARTINDO DESSA PRE­MISSA, COMO UMA EMPRESA DEVE SE RELA­CIONAR COM A COMUNIDADE PARA MANTER UMA POSTURA SUSTENTÁVEL?

Barela – O primeiro passo é entender que tipo de impacto o meu produto, o meu processo produtivo leva para a sociedade e trabalhar isso. A Cargill, por exemplo, tem a Fundação Cargill cujo foco é combater o desperdício, a obesidade infantil e a desnutrição. São três temas ligados ao nosso negócio – produção de alimentos. Uma empresa, indepen­dente do seguimento, tem que levar conhecimento e promover ações que minimizem o impacto social, além do ambiental sempre muito comentado.

RBA – QUAL O PAPEL DAS EMPRESAS E OR­GANIZAÇÕES NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIE­DADE MELHOR?

Barela – Cada vez é maior essa responsabilidade. As empresas têm suas metas, querem ter lucros, querem atingir seus objetivos. Mas, de que forma? Existe um jeito certo de fazer isso. Reduzindo os impactos, principalmente as emissões, buscando uma economia de baixo carbono, o que impacta diretamente na sociedade e oferece uma condição melhor de vida para as pessoas.

Esse é o papel das empresas. Se elas se unem nisso, conseguem, com certeza, transformar a socieda­de em uma sociedade melhor. O papel do admi­nistrador, do líder, é fundamental em todo esse processo porque é ele quem vai tomar decisões, e essas decisões têm que ser pautadas num modelo sustentável de negócio.

RBA – QUAL O PAPEL DO LÍDER NA FORMAÇÃO DE PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS E NA FOMENTAÇÃO DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL? RBA – QUAL O PAPEL DO LÍDER NA FORMAÇÃO DE PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS E NA FOMENTAÇÃO DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL?

Barela – No fundo, quem toma as decisões são os líderes. Dependemos muito dessas pessoas para escolher o caminho que a sociedade quer tomar. Não adianta ter uma empresa engajada na susten­tabilidade e o líder dizer que não entende isso, ou que não funciona.

Nós estamos no momento em que consumimos mais do que a natureza consegue absorver e ofe­recer de recursos, de 25% a 30% mais. Para mudar essa curva e voltar a viver com os recursos que a Terra pode oferecer, dependemos das decisões dos líderes, dos administradores. O entendimento desse líder com relação ao conceito da sustentabilidade é o que vai fazer a diferença na prática. Por isso, essa liderança é fundamental para conseguirmos viver melhor e mudar o cenário atual de degradação do planeta.

RBA – NO FINAL DE MAIO, UMA DECISÃO DA CASA BRANCA ABALOU O MEIO CIENTÍFICO. O PRESIDENTE DOS EUA, DONALD TRUMP, RE­VOGOU O ACORDO DE PARIS. COMO VOCÊ VÊ A DECISÃO?

Barela – É triste. O mundo trabalha para buscar uma economia de baixo carbono. Todos entendem que isso é preciso para a própria sobrevivência das empresas. Não dá para uma empresa ir bem em uma sociedade que vai mal. Precisamos de uma sociedade saudável para que as empresas conti­nuem desenvolvendo os seus negócios.

Essa decisão vai contra os objetivos de manter um desenvolvimento sustentável, que perdure, vai contra o que as empresas acreditam. Pode favorecer alguns setores nos Estados Unidos, mas – isso é incrível – até esses setores não gostariam de uma mudança dessas, desse posicionamento do governo americano. Com certeza, é um retrocesso nos esforços de reestabelecer o equilíbrio climático do planeta.

RBA – VOCÊ ACHA QUE, PROFISSIONALMENTE, A ÁREA DE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL TEM SIDO BEM EXPLORADA AQUI NO BRASIL?

Barela – Vem crescendo muito, há 11 anos. No começo, não tinha isso muito claro nas empresas. Existia um instituto dentro das empresas que fazia um trabalho mais social. Tinham as áreas de meio ambiente, que são fundamentais na empresa, mas não eram voltadas à sustentabilidade literalmente.

Hoje não. Vemos estruturas claras de sustentabi­lidades, entendendo qual é o seu papel dentro do negócio. Hoje, a maioria das grandes empresas já trabalha isso. Porém, temos casos de médias e pequenas empresas que também atuam focadas na sustentabilidade.

Quanto mais se divulga premiações que valorizam os produtos e projetos sustentáveis, que reconhe­cem as empresas, mais valoriza o setor como um todo. Outras empresas vão enxergando isso de forma positiva e investindo também.

O Brasil tem avançado cada vez mais no tema. Nas próprias universidades, antigamente, não tinha o curso de sustentabilidade. O tema era discutido um pouco dentro das disciplinas. Hoje, já tem várias opções no mercado.

RBA – QUE DICA VOCÊ DARIA PARA UM ESTU­DANTE OU RECÉM-FORMADO EM ADMINISTRAÇÃO QUE QUEIRA SEGUIR ESSA ÁREA?

Barela – Ele vai ter muito mercado para trabalhar, é uma tendência. Apesar dessa tendência, ainda é pequeno o grupo de empresas que realmente estão focadas em sustentabilidade. Ainda têm muitas empresas para avançar nesse tema.

É uma área que cresce muito e considero que esse é o caminho certo. A sustentabilidade, para mim, é uma evolução do processo de gestão, não dá para ser um bom gestor sem entender e praticar isso. Quem quer ser um bom administrador tem que estudar e conhecer, cada vez mais, o conceito da sustentabilidade. É o que vai fazer toda a diferen­ça, não só na carreira, mas na vida, com certeza.

2017-08-08T11:01:17+00:00 julho 6th, 2017|Categories: AMINISTRAÇÃO, INOVAÇÃO, NEGÓCIOS|Tags: |